Endometriose intestinal: sintomas, diagnóstico e tratamento

Conviver com dor para evacuar durante o período da menstruação, inchaço intenso ao longo do ciclo menstrual ou mudanças no ritmo intestinal todo mês não é normal – e, durante anos, muitas mulheres ouvem que é. Isso porque a endometriose intestinal é uma das formas mais subestimadas da doença, especialmente porque seus sintomas se confundem com condições digestivas comuns, e o diagnóstico correto pode demorar.

Entenda abaixo como é a endometriose no intestino, quais são os principais sinais de endometriose intestinal, como é o diagnóstico e quais são as opções de tratamento:

Endometriose intestinal: como acontece e quais os sintomas

A endometriose é uma doença crônica em que tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o útero internamente, cresce fora da cavidade uterina. Esse tecido responde aos hormônios do ciclo menstrual, inflamando e potencialmente causando aderências nos órgãos que ele atinge.

Já a endometriose intestinal (ou endometriose colorretal) é a forma da doença em que esses focos se implantam na parede do intestino. A ligação entre intestino e endometriose não é tão conhecida por pacientes e, por causar sintomas digestivos, pode se confundir com outras condições, tornando o diagnóstico complexo.

Nesse contexto, a endometriose intestinal é, em geral, uma forma de endometriose profunda (ou endometriose infiltrativa). Nesses casos, os focos da doença penetram mais de 5 milímetros abaixo da superfície dos tecidos afetados, e se trata de uma das formas mais avançadas da doença.

A endometriose no reto e a endometriose no sigmóide lideram as ocorrências desse tipo de quadro. Isso tende a acontecer devido à proximidade dessas áreas do intestino com o útero e os ovários, onde a condição se inicia.

Sintomas da endometriose intestinal

Os sintomas da endometriose intestinal tendem a surgir (ou se intensificar) nos dias que antecedem e durante a menstruação. Esse fator é o principal sinal de alerta, pois indica que sintomas digestivos estão ocorrendo sob influência do ciclo – algo bastante típico da endometriose colorretal.

Entre os sinais mais comuns, é possível citar:

  • Dor para evacuar na menstruação, frequentemente descrita como pressão ou queimação no reto;
  • **Alteração no hábito intestinal na menstruação** (como constipação, diarreia ou alternância entre eles);
  • Dor abdominal na menstruação e distensão intensa, especialmente antes ou durante o fluxo;
  • Sangramento nas fezes durante a menstruação;
  • Dor pélvica crônica (dor persistente fora do período menstrual).

Nesse contexto, vale destacar que a intensidade dos sintomas nem sempre indica que a doença está afetando mais ou menos o intestino. Isso porque algumas mulheres com lesões grandes relatam sintomas leves, enquanto outras, com lesões pequenas, têm sintomas que afetam de forma mais intensa a qualidade de vida.

É importante frisar também que, como esses sintomas afetam o trato digestivo, o quadro pode facilmente se confundir com outras condições. Isso inclui, por exemplo, a síndrome do intestino irritável e a Doença de Crohn.

Por esse motivo, é importante buscar um médico especialista para avaliar o quadro mesmo sob a ideia de que sentir dores durante a menstruação é algo normal. Além disso, é imprescindível relatar todos os sintomas ao médico, mesmo que eles não pareçam relacionados

No vídeo abaixo, explico mais sobre os sinais de que a endometriose atingiu o intestino:

Diagnóstico da endometriose intestinal

O diagnóstico da endometriose no intestino começa pela avaliação clínica. Nela, o médico avalia os sintomas, a relação da paciente com o ciclo menstrual e os achados do exame físico. Na sequência, para fechar definitivamente o diagnóstico, é necessário realizar exames de imagem que, além de confirmar, também revelam informações sobre a extensão das lesões. Nesse contexto, os principais são:

Ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal

A ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal é o exame de primeira linha para investigar o acometimento do intestino pela endometriose. Diferentemente do ultrassom convencional, porém, esse protocolo inclui preparo do cólon com o uso de um laxante que permite esvaziar o intestino e visualizar melhor a área.

Ressonância magnética pélvica

A ressonância entra na investigação quando a ultrassonografia sugere comprometimento grande do intestino, ou como parte do planejamento pré-operatório em casos nos quais a cirurgia é necessária. Para gerar imagens detalhadas da região, o exame também inclui um preparo com esvaziamento do intestino com laxante.

Colonoscopia

A colonoscopia, exame que permite a visualização do interior do intestino, também pode entrar na investigação sobre endometriose intestinal. Isso acontece especialmente em casos nos quais há sangramento nas fezes durante a menstruação de forma persistente, ou de forma a afastar outros diagnósticos (como câncer colorretal).

De forma geral, porém, a colonoscopia não costuma fazer parte da investigação padrão da doença.

Tratamento da endometriose intestinal

O tratamento da endometriose intestinal tem como ponto de partida o tratamento conservador, e a cirurgia entra quando ele não é suficiente ou quando a doença tem complicações que exigem intervenção rápida. As opções incluem:

Tratamento medicamentoso

O objetivo dessa linha terapêutica é suprimir o ciclo menstrual e reduzir a atividade do estrogênio sobre os focos da doença. Isso porque a endometriose depende desse hormônio para crescer e inflamar, e sem a estimulação hormonal cíclica, as lesões tendem a parar de progredir.

Aqui, as principais opções incluem anticoncepcionais orais combinados, pílulas de progesterona isoladas, DIU hormonal ou análogos de GnRH (medicamento que inibe a produção de estrogênio).

É importante frisar que nenhuma dessas opções elimina as lesões que já existem, apenas controlam os sintomas enquanto os medicamentos estão em uso. Sendo assim, quando a paciente descontinua o uso, os desconfortos costumam retornar – e, por isso, a escolha do tratamento depende das particularidades de cada caso.

Cirurgia para endometriose intestinal: quando é necessária?

A cirurgia para endometriose intestinal entra em cena quando o tratamento medicamentoso falha, quando as lesões estão obstruindo o intestino ou quando comprometem demais seu funcionamento. Em geral, o procedimento acontece por videolaparoscopia, e a conduta depende da extensão da doença. Assim, é possível tanto retirar os focos da superfície intestinal quanto retirar um segmento do cólon em casos mais avançados.

É importante frisar que a cirurgia não cura a endometriose, visto que se trata de uma doença crônica. Ela remove os focos existentes e, na maioria dos casos, promove melhora significativa da dor, dos sintomas intestinais e da qualidade de vida.

Nos meses após o procedimento, é comum haver readaptação do intestino, como alterações no trânsito, sensação de inchaço ou gases – todos com tendência a se resolver progressivamente. O retorno a atividades leves ocorre em torno de duas semanas, enquanto atividades físicas mais intensas dependem muito da extensão do procedimento e da avaliação médica caso a caso.

Endometriose intestinal e o papel do cirurgião do aparelho digestivo

Quando os sintomas da endometriose sugerem que a condição está afetando o intestino, o ginecologista geralmente aciona o cirurgião do aparelho digestivo ainda na fase de investigação. Isso porque avaliar a extensão das lesões no trato digestivo exige um olhar especializado.

Nesse contexto, o cirurgião digestivo contribui com o planejamento diagnóstico, interpreta os resultados de exames de imagem, estuda as melhores técnicas para a cirurgia em cada caso e também realiza o procedimento.

Aqui, é importante frisar que, quanto mais cedo esse especialista entra no acompanhamento, mais precisa tende a ser a investigação. Sendo assim, se você tem sintomas intestinais que se repetem a cada ciclo menstrual, como dor para evacuar na menstruação, dor pélvica crônica e mais, não adie a investigação e marque sua consulta para avaliação personalizada do quadro

Dra. Anna Clara Mitidieri – especialista em endometriose intestinal em São Paulo

A Dra. Anna Clara Mitidieri é cirurgiã do aparelho digestivo em São Paulo, com atuação em hospitais de referência e experiência em cirurgia da endometriose intestinal. Ela integra equipes multidisciplinares de endometriose ao lado de ginecologistas, atuando no planejamento cirúrgico e na ressecção intestinal em casos de endometriose profunda com acometimento do trato digestivo. A Dra. realiza cirurgia digestiva em Moema e região, com ênfase em cirurgia minimamente invasiva.

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O principal indicativo é a ocorrência de sintomas intestinais cíclicos – ou seja, que flutuam de acordo com o momento do ciclo menstrual. Eles incluem, por exemplo, dor para evacuar na menstruação, alteração do hábito intestinal na menstruação, dor abdominal na menstruação e distensão que se intensificam antes e durante a menstruação. A confirmação, porém, só vem com exames de imagem.

Nem sempre. O tratamento da endometriose intestinal geralmente começa com controle hormonal, inibindo a produção de estrogênio e, assim, melhorando os sintomas. Já a cirurgia entra em cena quando o tratamento medicamentoso não controla os sintomas, quando há obstrução intestinal ou quando a extensão das lesões compromete o funcionamento do intestino.

O diagnóstico da endometriose intestinal se baseia em ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e, quando necessário, ressonância magnética pélvica. Já a colonoscopia pode ser solicitada em casos selecionados, especialmente quando existe sangramento nas fezes durante a menstruação ou para descartar suspeitas de outros diagnósticos.

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