Gastroparesia: o que é, sintomas, causas e tratamento
Sentir o estômago cheio logo nos primeiros minutos de refeição, ter náuseas frequentes sem causa aparente ou vomitar alimentos ingeridos horas antes são sintomas que tendem a apontar para várias direções – e a gastroparesia (também chamada de estômago lento ou paralisia do trato digestivo) é uma delas.
Entenda abaixo o que é a gastroparesia, quais são suas causas, como são os sintomas da gastroparesia, como é o diagnóstico e quais são as linhas de tratamento, desde adaptação alimentar até procedimentos endoscópicos e cirurgias.
Gastroparesia: o que é, causas, sintomas e mais
Em condições normais, os músculos do estômago se contraem de forma coordenada para auxiliar na digestão dos alimentos e empurrá-los, em pequenas porções, para o intestino. Esse processo, chamado de esvaziamento gástrico, depende do equilíbrio entre uma série de fatores – e a gastroparesia ocorre quando esse mecanismo falha.
Nesse quadro, o estômago perde a capacidade de se esvaziar no ritmo adequado, mantendo o alimento ali por mais tempo do que deveria. O resultado disso é um conjunto de sintomas que variam caso a caso em termos de intensidade.
Causas da gastroparesia
Na maior parte dos casos, a gastroparesia é idiopática – ou seja, sem a identificação da origem mesmo após investigação completa. Em alguns casos, o surgimento da condição pode estar associado ao diabetes mellitus. Nestes casos, o descontrole glicêmico pode lesar o nervo vago, comprometendo o funcionamento do estômago. Esse quadro, inclusive, recebe o nome de gastroparesia diabética.
Além do diabetes, outras situações associadas ao surgimento da gastroparesia incluem:
- Cirurgias prévias no estômago ou no esôfago, que podem danificar o nervo vago ou alterar a anatomia da saída do órgão
- Doenças neurológicas como Parkinson e esclerose múltipla
- Hipotireoidismo
- Esclerodermia e outras doenças do tecido conjuntivo
- Infecções virais agudas
- Medicamentos que retardam o esvaziamento gástrico, como opióides, anticolinérgicos e agonistas de GLP-1 (como Mounjaro, Ozempic e mais)
Sintomas da gastroparesia
Os sintomas da gastroparesia surgem porque o alimento fica retido por mais tempo que o normal dentro do estômago. Assim, o conteúdo pressiona as paredes do órgão, interfere na produção normal de ácido e compromete a absorção de nutrientes. Entre eles, é possível citar:
- Náuseas frequentes;
- Vômitos após as refeições (às vezes contendo alimentos que foram ingeridos muitas horas antes);
- Saciedade precoce (sensação de estômago cheio após ingerir pouca comida);
- Distensão abdominal e desconforto na região superior do abdômen;
- Dificuldade para digerir alimentos sólidos (especialmente os mais fibrosos ou gordurosos);
- Refluxo e perda de apetite (que, em quadros prolongados, levam à perda de peso).
Além disso, o esvaziamento gástrico retardado também interfere no controle glicêmico de pacientes diabéticos. Isso porque, como o alimento chega ao intestino de forma imprevisível, os níveis de açúcar no sangue oscilam de forma difícil de manejar, algo que tende a agravar a própria gastroparesia diabética.
Diagnóstico da gastroparesia
O diagnóstico da gastroparesia começa com as queixas pelos sintomas e, para que haja confirmação, é importante realizar exames. Isso porque esses exames é possível descartar outras possíveis causas, como uma obstrução no trato digestivo, por exemplo.
Nesses casos, os exames mais comuns incluem:
Cintilografia de esvaziamento gástrico
A cintilografia de esvaziamento gástrico é o exame padrão para confirmar a gastroparesia. Nele, o paciente ingere uma refeição padronizada (geralmente ovos) contendo um marcador radioativo em dose segura e aprovada para uso diagnóstico. Esse marcador, então, percorre o trajeto do alimento pelo estômago sem ser absorvido pelo organismo.
Durante as horas seguintes, o paciente permanece diante de câmeras externas de cintilação que detectam a emissão do marcador e registram, em tempo real, a velocidade de esvaziamento do estômago. Ao final, o resultado classifica a gastroparesia em leve, moderada ou grave.
Endoscopia digestiva alta
A endoscopia digestiva alta entra na investigação da gastroparesia com uma função específica: descartar outras causas para os desconfortos. Alguns exemplos de outras condições que geram sintomas semelhantes incluem, por exemplo, úlceras, estenose pilórica, tumores gástricos e acalasia (outro distúrbio da motilidade gástrica, mas que envolve o esôfago).
Esse exame não confirma a gastroparesia, mas é indispensável para uma investigação completa e melhor direcionamento do tratamento. Ainda assim, esse exame muitas vezes revela resíduos alimentares no estômago mesmo após o período de jejum, aumentando a suspeita de que o esvaziamento está prejudicado.
Tratamento da gastroparesia
O tratamento da gastroparesia depende da causa dessa condição. Se a causa é medicamentosa, pode ser necessário suspender a medicação que está ocasionando os sintomas, ou fazer ajustes na dose (em casos do uso de GLP-1, por exemplo). Já quando o diabetes é a causa, o controle rigoroso da glicemia também faz parte do tratamento.
Além disso, o tratamento da condição também pode incluir:
Adaptações alimentares
A primeira linha do tratamento clínico da gastroparesia é dietética. O objetivo, aqui, é facilitar o trabalho do estômago, oferecendo a ele refeições menores e mais frequentes ao longo do dia para reduzir o volume a ser esvaziado em cada situação.
Além disso, alimentos ricos em gordura e em fibras que não podem ser digeridas (como brócolis e laranjas) também devem ser evitados, pois retardam ainda mais o esvaziamento.
Em casos mais graves, pode haver necessidade de utilizar dieta líquida ou pastosa para facilitar a passagem do conteúdo pelo aparelho gástrico. Tudo isso mostra que o acompanhamento nutricional individualizado também faz parte do tratamento, para proporcionar não só o alívio dos sintomas, mas a prevenção da desnutrição.
Uso de medicamentos
O tratamento clínico da gastroparesia também pode incluir medicamentos, como os procinéticos e os antieméticos. Enquanto a primeira classe de remédios estimula as contrações do estômago e aceleram o esvaziamento, a segunda controla as náuseas frequentes e os vômitos após as refeições, melhorando a tolerância aos alimentos e a qualidade de vida.
A escolha e a combinação de medicamentos usados, porém, depende do perfil de cada paciente, da causa do problema, da gravidade dos sintomas e de possíveis outras condições associadas à gastroparesia.
Procedimentos endoscópicos e cirúrgicos
Quando as mudanças na alimentação e o tratamento medicamentoso não controlam os sintomas, o próximo passo costuma incluir procedimentos no piloro, válvula que regula a saída do estômago para o intestino delgado. Entre esses procedimentos, é possível citar:
Miotomia gástrica peroral endoscópica (G-POEM)
Esse procedimento é minimamente invasivo e realizado por via endoscópica, sem incisões externas. Nele, o endoscopista acessa o músculo do piloro por dentro do próprio estômago e amplia a passagem, favorecendo o esvaziamento gástrico.
Essa é a opção com resultados mais promissores nos casos que não respondem a tratamento clínico e não têm relação com diabetes ou uso de determinadas medicações.
Injeção de toxina botulínica
Nesse procedimento, que também é endoscópico, o especialista injeta toxina botulínica no músculo do piloro. Isso relaxa temporariamente o músculo, favorecendo a passagem dos alimentos após a digestão. O efeito desse procedimento, porém, é transitório, limitando seu uso a situações específicas.
Piloroplastia por videolaparoscopia
Esse procedimento cirúrgico minimamente invasivo também serve para ampliar a abertura do piloro, facilitando o fluxo gástrico de forma mais duradoura. Ele é feito por videolaparoscopia – ou seja, sem cortes extensos, apenas pequenas incisões.
Estimulação elétrica gástrica
Nesse procedimento, um dispositivo implantado cirurgicamente envia pulsos elétricos à musculatura do estômago, modulando a atividade dele. Ele tende a ser mais eficaz em casos de pacientes com gastroparesia diabética e sintomas como náuseas e vômitos.
Papel do cirurgião do aparelho digestivo na gastroparesia
A definição do melhor tratamento para um quadro de gastroparesia depende de avaliação especializada. Nessa avaliação, o especialista analisa o quadro detalhadamente, investiga as causas e estuda e a relação entre benefícios e riscos – e um dos médicos mais adequados para esse tipo de quadro é o gastroenterologista e cirurgião digestivo.
Sendo assim, se você convive com náuseas frequentes, sensação de estômago cheio após a ingestão de pouco alimento ou vômitos após as refeições sem explicação, não deixe de agendar uma consulta!
Dra. Anna Clara Mitidieri – cirurgiã do aparelho digestivo em São Paulo
A Dra. Anna Clara Mitidieri é especialista em doenças do estômago e atua em hospitais de referência em São Paulo, com foco no diagnóstico e tratamento da gastroparesia e de outras condições no aparelho digestivo. Membro e instrutora do ATLS (Advanced Trauma Life Support), ela realiza cirurgia digestiva em Moema com ênfase em abordagens minimamente invasivas.
Mais sobre gastroparesia
O que é gastroparesia e quais são os principais sintomas?
A gastroparesia é uma condição em que os músculos do estômago não funcionam adequadamente, levando ao esvaziamento gástrico lento sem que exista uma obstrução no trajeto do alimento. Os principais sintomas da gastroparesia incluem náuseas frequentes, vômitos após as refeições, saciedade precoce, sensação de estômago cheio e distensão abdominal.
Gastroparesia tem cura?
A gastroparesia é uma condição crônica e, na maioria dos casos, não tem solução definitiva. O objetivo do tratamento é controlar os sintomas, melhorar o esvaziamento gástrico e preservar a qualidade de vida. Em casos de gastroparesia diabética ou de uma condição causada por medicamentos, tratar o diabetes ou fazer alterações na medicação tendem a melhorar significativamente o quadro.
Quando a cirurgia é indicada para tratar gastroparesia?
A cirurgia para gastroparesia entra em cena quando as adaptações alimentares e o tratamento clínico da gastroparesia não controlam os sintomas de forma satisfatória, ou quando o quadro é grave o suficiente para comprometer a nutrição e a qualidade de vida. A decisão sobre isso é individual e depende da avaliação criteriosa de cada paciente.
